'O que você fez para provocar?': professora agredida lembra humilhação e silenciamento antes da Lei Maria da Penha

Sobrevivente relata humilhação antes da Lei Maria da Penha: 'de vítima a ré' Agressões, humilhações e silenciamento foram enfrentados pela professora e p...

'O que você fez para provocar?': professora agredida lembra humilhação e silenciamento antes da Lei Maria da Penha
'O que você fez para provocar?': professora agredida lembra humilhação e silenciamento antes da Lei Maria da Penha (Foto: Reprodução)

Sobrevivente relata humilhação antes da Lei Maria da Penha: 'de vítima a ré' Agressões, humilhações e silenciamento foram enfrentados pela professora e psicóloga Daniela Cristina Nunes, moradora de São Carlos (SP). Ela viveu uma realidade marcada pela violência doméstica em um período em que não havia legislação específica para proteger as mulheres, como a Lei Maria da Penha, que está completando 20 anos. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram A história dela mostra como as vítimas eram silenciadas, desacreditadas e muitas vezes responsabilizadas pelas agressões sofridas. Ao tentar denunciar, ela relembra que as denúncias eram recebidas em mesas comuns nas delegacias, sem privacidade, e as vítimas eram questionadas e desacreditadas. "Fui desmerecida, eu acho que de vítima passei a ré, que é como sedutora. Eu ouvia perguntas como: 'mas foi isso mesmo', 'o que você fez para provocar?'", disse. 📺 A EPTV, afiliada da TV Globo, exibe entre os dias 3 e 14 de agosto a série especial "Dona Penha", que relembra a trajetória da ativista que inspirou a criação da Lei Maria da Penha. Com 11 episódios, exibidos de segunda a sexta-feira, a produção lembra os 20 anos da legislação, considerada um marco no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. (Veja aqui os episódios já exibidos). A professora e psicóloga Daniela Cristina Nunes relembra violências sofridas antes da Lei Maria da Penha EPTV/Reprodução Mais notícias da região: AJUDA: Violência contra mulher: veja DDMs e outros locais para buscar ajuda em cidades do interior de SP 'Dona Penha': entenda tipos de violência contra a mulher e como a Lei Maria da Penha se fortaleceu em 20 anos LEVANTAMENTO: Cidades do interior de SP têm mais de 12 mil medidas protetivas em 2 anos e meio; saiba como pedir Violência e medo Após mudar para São Carlos para reconstruir a vida, as marcas da violência permanecem vivas na memória. Ela lembra de ter a cabeça batida contra uma mesa de centro, de sofrer socos e chutes e de uma gestação decorrente dos abusos. Mais tarde, voltou a ser espancada e perdeu um filho que já esperava. "Às vezes era agredida do meio da rua, com vários golpes e socos. Foi outra surra, foram outros procedimentos, aí infelizmente esse filho que seria meu, porque eu já tinha aceitado que era meu, foi interrompido. A vida dele seguiu e eu que lupasse para dar continuidade", contou. Daniela também enfrentou pressões para interromper uma gravidez, inclusive da família do agressor. Sua autonomia sobre o próprio corpo foi negada, reforçando a violência sexual e reprodutiva que muitas mulheres sofrem. "Eu fui coagida inúmeras vezes a interromper a gravidez até pelos familiares dele", disse. Além das agressões físicas, sofreu humilhações sociais. Em rodas de amizade, ouviu que não era “digna” de estar ali, como se tivesse perdido valor por ser violentada. "Eles diziam que eu não servia mais de exemplo", relembrou. A sensação era de impotência e medo constante. A culpa e a vergonha a acompanhavam, e a paralisavam ao ponto de impedi-la de buscar ajuda. "Diante de uma situação que você vê que a pessoa (policial) não te dá credibilidade, não adiantou de nada, então amanhã na rua eu vou ser agredida de novo. E com ele não aconteceu nada, ficou ali no esquecimento", disse. Daniela Cristina Nunes relatou momentos de muito medo e impotência frente a violência de que foi vítima EPTV/Reprodução Antes da lei Maria da Penha Daniela destacou que tudo isso aconteceu antes da Lei Maria da Penha. Naquele tempo, práticas como espancar a companheira podiam ser resolvidas com o pagamento de uma cesta básica, sem consequências reais para o agressor. Wânia Pasinato, assessora sênior violência contra mulheres da Organização das Nações Unidas (ONU), ressaltou que a violência doméstica era tratada até os anos 1980 como um problema privado do casal. "Elas recebiam como resposta institucional que deveriam voltar para casa, preparar o jantar, acalmar o marido para que aquilo não acontecesse. Até os anos 80, a gente tinha principalmente os homicídios considerados como crimes de legítima defesa da honra", disse Wânia Wânia Pasinato é assessora sênior violência contra mulheres da Organização das Nações Unidas (ONU). EPTV/Reprodução O impacto da Lei Maria da Penha Daniela reconhece que sua trajetória teria sido diferente se a lei já existisse em sua época. Hoje, sua voz ecoa como testemunho da importância da legislação e da necessidade de sua plena implementação. "Teria sido diferente com a lei prevalecendo", afirmou. A advogada Carla Missurino recorda que quando a lei foi sancionada, em 2006, era considerada violência apenas a agressão física, tentativa de morte, e morte de mulheres. Em 20 anos, houve várias alterações legais, inclusive a violência psicológica como crime. Hoje as medidas protetivas também valem para irmãos, pais, filhos, entre outros familiares. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, mudou esse cenário ao reconhecer diferentes formas de violência, física, psicológica, moral, patrimonial e sexual, ao criar mecanismos e medidas protetivas para afastar o agressor. Veja a reportagem na íntegra: Lei garante apoio a mulheres vítimas de violência; veja quais são os direitos REVEJA VÍDEOS DA EPTV CENTRAL: Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara